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ESQUIVOS por demais se nos deparam os documentos escritos concernentes à igreja moçárabe de S. Pedro de Lourosa — que saibamos, reduzidos, quando muito, a simples referências não menos fugidias também. Já não assim as de natureza monumental, que uma inscrição, autêntica, do século X (ano de 950, correspondente a 912 da era cristã), providencialmente escapa à sanha desarvorada das substituições e acréscimos, enriqueceu, a fazerem-nos remontar à época da construção e do estilo a que obedece esta igreja; sem que, todavia, o empeça o desvairamento confuso porque passou, no can­sado distender de uma idade já provecta, aquando a formação do território portucalense, e mais que milenária, hoje em dia — desorientação artística tanto maior, quanto mais se acumulavam os séculos à sua volta desfeitos em pó.

 

Aliando a um fundo visigótico elementos árabes, a matriz de Lourosa encontra-se, por isso mesmo, integrada no estilo moçárabe; que é tal, à míngua de características bem definidas, o qualificativo que se convencionou dar a todas as igrejas conservadas ou edificadas pelos cristãos da Espanha que viviam sob o domínio muçulmano.

A estas últimas, todavia, êle compete de preferência, pela combinação mais acentuada do estilo visigótico que lhe serve de base, com o estilo árabe, no seu período de formação, conhecido por bizantino (desde o século VIII ao X inclusive), o qual, sem interferir de uma forma decisiva, algo de elementos secundários subministrou.

 

É que, à sazão da Reconquista, se é certo que os povos cristãos da Península restauraram, em parte, os restos das gran­dezas visigóticas, após a invasão islamita começaram, sem dar-se conta disso, a receber a influência artística dos maometanos vencedores, tanto mais que nela havia uma certa analogia com a arte cristã do Oriente; pois, embora modificados, são persas e bizantinos os elementos característicos da arte árabe—E não haja motivo a dúvidas, sabendo-se das frequentes embaixadas com intuitos, às vezes, exclusivamente científicos e artísticos, entre os imperadores de Constantinopla e os califas de Damasco e de Córdova, a-par do comércio íntimo e assíduo de ideias e processos de Arte, com a permuta recíproca de operários para a execução das obras projectadas—A Reconquista, pois, era a continuação de uma época de ansiedades e de indecisões, cuja arte reflectia, em sua génesis, as dificuldades e os caprichos da constituição dos estados peninsulares, isto, porém, represen­tava já um avanço notável.

 

É que a arquitectura latina das basílicas, tão florescente no Ocidente durante os séculos V e VI, declina rapidamente depois da anarquia produzida pela invasão dos bárbaros. E foi geral a derrocada; demais, que os artistas, a braços com a miséria,   se  viam   obrigados  a  refugiar-se  no  Oriente,  onde encontravam o acolhimento desejado.

 

E no entanto, àquelas novas raças vindas do fundo dos bosques, detentoras de um património pujante de vigor, de intensidade e riqueza de fantasia, estava destinado levantar a própria Arte; assim como, mais tarde, nas literaturas dos nas­centes idiomas vulgares e nas belas liturgias latinas da Igreja, patentear o generoso e vital fervor do seu sangue juvenil, trans­fundido na sociedade culta.

 

Foi assim que, após as hesitações do período latino-bizantino, já a arte religiosa da Idade Média pôde, na época românica, expandir-se galhardamente na traça arrojada e nos pórticos impressionantes das suas igrejas e, depois, quando o reino da ogiva dominava, desentranhar-se em autênticas mara­vilhas de arquitectura e de exôrno — as catedrais.

 

Era aí, graças às muitas pléiades de artistas famosos — arquitectos, escultores, pintores, cinzeladores, esmaltadores, vidreiros e iluminadores— que a Arte requintava de harmonia e beleza para tornar mais atraente o escrínio do Senhor, como a tudo o mais que lhe andava adstrito: altares, retábulos, sacrários, pias baptismais, ferragens, cadeiras, lâmpadas, objectos decora­tivos e de adoração, vasos sagrados e, até, os livros litúrgicos; que lá estavam os suaves fólios de vitela dos missais, antifonários e livros de reza para ilustrar de ricas vinhetas; em laçarias que se intercalavam de flores, frutos e animais, os espaços reser­vados às elegantes maiúsculas de complicada crisografia, que se enredavam de vergônteas silvestres, onde soía destacar-se a rosa nacarada de vermelho vinoso, a alvinitente açucena, ponteada de grãos luzentes de oiro, e o lento caracol, a denunciar o per­corrido caminho por um rasto prateado de baba.

 

Jóias de peregrina beleza, consteladas de gemas pre­ciosas, numa teoria esplêndida de cores em fogo, que o deslumbrante fulgor dos avantajados alvéolos das rosáceas, nas fachadas, e das janelas, ao longo das naves, acendia, as catedrais patenteiam uma inultrapassada criação artística que o génio remoçado da Meia Idade soube, como nenhum outro, conceber e melhor realizar.

 

Força, porém, é pôr ponto à digressão, que, sem o querer, por pouco nos ia desviando do assunto. Reatemos, pois, o fio perdido:

 

Estabelecidos na Espanha, desde o ano de 412, os visigodos, que, dentre os povos bárbaros invasores do Império Romano, eram os menos ariscos e, quiçá, os mais cultos, depois de haverem destruído, resolveram-se a edificar. Como está de ver, primeiro que se apercebessem do complicado método de construir, levou alguns séculos. Poderíamos concatenar assim o evoluir da sua arte, alias, interessante e não isenta de originalidade.

 

Sem dar de mito às reminiscências de uma arte ornamental bárbara—a bem dizer, toda a bagagem artística de que dispunham—os visigodos começaram pela adaptação dos ele­mentos clássicos, que muitos havia dispersos, quando não por conveniência transferidos de alguns edifícios ainda em pé, e pela imitação tosca das construções da arte romana, que tão vigorosas raízes havia mergulhado no solo da Península; após, veio a influência bizantina, trazida, principalmente, pela chegada das legiões imperiais, nos meados do século VI, em auxilio do rei Atanagildo, com a fixação, aqui, dos orientais, passante de meio século, mediando o acompanhamento obrigado de artistas bizan­tinos; abraçaram o que de afim se encontrava na carreagem artística dos árabes invasores; e, por último, quando não simultaneamente, outras influências artísticas jun­taram àquelas, por ocasião das incursões normandas (844), ante­riores à consagração dos templos asturianos (1), as quais, não obstante os danos produzidos, se converteram em objecto de novos princípios de criação. Foi desta sorte, com a amálgama de tantos elementos conjugados, que êles conseguiram impor uma a arte verdadeiramente peninsular — com caracteres próprios e bem definidos, primeiro que o predomínio românico de além Perinéus se acentuasse.

 

Ora, o fundo visigótico, de tipo asturiano, da igreja moçárabe de Lourosa manifesta-se a claro na forma longitudinal que tomou de basílica latina, com abside (apis) rectangular, tríplice, em correspondência com as três naves, das quais a central é mais alta, separado o presbitério por um anteparo de­nominado pérgola (a iconostasis dos gregos), como oportuna­mente se verá, e, ainda, no vestíbulo (narthex), que, de acordo com a tradição, se destinava aos catecúmenos e penitentes.

 

Por sua vez, os elementos árabes denunciam-se na forma ultra-semicircular dos arcos e no enquadramento superior (arrabaa) das janelas em ajimez, com arcos de ferradura. Isto como de maior tomo; que o mais a custo poderá lobrigar-se integrado, como está, na estrutura visigótica, que tudo enche, em estranha mescla de reminiscências romanas e bizantinas degeneradas, com outros elementos, ainda, de nova importação que se foram introduzindo.

 

Quanto ao desenvolvimento da parte escultórica, não se julgue encontrar aí, como em algumas basílicas asturianas dos séculos IX e X, baixos relevos de personagens, animais e plantas, sem dúvida, rudimentares e falhos de modelado, a modos de infantis desenhos toscamente gravados na pedra. Não, a igreja de Lourosa, debaixo deste ponto de vista, limita-se, quando muito, às consabidas rosetas em hélice; às estrelas de seis pontas e círculos aspiralados de origem micénica; aos minguados toros contornantes dos ajimez e frestas, ou correndo paralela­mente nos frisos; às cruzes gregas diversamente gravadas ou cavadas adentro de um redondel, e pouco mais. Os mesmos capitéis primitivos, dóricos na forma, consubstanciam a expressão ornamental mais simples, muito longe, portanto, das variadíssimas interpretações coríntias, que, desde os tempos bárbaros, em começo, se prolongaram durante todo o período românico e alcançaram ainda o ogival, para não falar da época da Renas­cença. E certo que dois formosos capitéis de imitação coríntia, com importantes parcelas dos respectivos fustes e as bases, com toros de secção ovoidal, apareceram no enchimento das paredes demolidas, aquando as obras de reintegração; mas estas bases e capitéis, pelo sabor gótico que os caracteriza, denunciam já o início, provável, das restaurações nesta igreja; que foram várias as que sofreu no transcurso desmesurado de tantos séculos.

 

E o mesmo se dá com outro capitel, este, abertamente já da Renascença.

Agora vem ao caso enfrentar o aspecto histórico da edificação. É que, tomando-se como ponto de partida 0 ano de 912, assinalado pela inscrição encontrada na igreja, resta averiguar sob que domínio—leonês ou muçulmano?—ela foi construída; que, assim, melhor poderá ajuizar-se da maior ou menor influência exercida pela arte árabe sobre o notabilíssimo monumento cristão da Beira— influência não muito pronun­ciada, por certo, em qualquer dos casos; mas, no entanto, de apreciável relevo.

 

Na segunda parte do seu excelente livro S. Pedro da Balsemão e S. Pedro de Lourosa, o ilustre professor D. José Pessanha, propondo a mesma questão, afirma que é «extremamente difícil, se não impossível, averiguar, se, pelos anos de 912, a região em que demora Lourosa fazia parte, do domínio maometano ou da mo­narquia leonesa, de que era então chefe Garcia I». E com razão, atenta a carência manifesta de dados históricos em ordem a esclarecer este assunto de sobejo obscuro, ciente, como está, de que, amiude, o campo das suposições se converte em terreno pouco arável à verdade. No entanto, se o problema fica inde­ciso, não vejo quem mais vantajosamente o solucione, sem que haja de lançar mão de hipóteses melhor ou pior deduzidas.

 

A sua Ex.ª, pois, ouso pedir vénia para transcrever de espaço a magnífica lição que nos dá. É como segue:

«Em virtude da paz estabelecida em 883 entre o emir de Córdova e Afonso III de Leão, os limites dos territórios cristãos demarcaram-se definitivamente, ao sul e sueste pelo Douro. Do lado, porém, do Ocidente, as fronteiras leonesas estendiam-se até além Mondego,—segundo Dozy (2)  infere de passagens da Chronica do Monge  de Silos e do  Chronicon Conimbricense.   Afonso III tinha, de facto, realizado conquistas na antiga Lusitânia: «Era DCCCªIIIª (3) Ildefonsus,   ordonii  filius,   cepit  colibriam... bracaram et portugalem, viseum, lamecam, egitana...» — lê-se no, Chronicon Conimbricense (4). E que, pelo menos, Viseu se não havia perdido nas lutas que antecederam as tréguas com o emir de Cór­dova, prova-o a afirmação do monge silense, de que o rei de Leão, Garcia I, filho de Afonso III, depois da tomada de Regilde filho de Afonso III, «cum máximo captivorum spoliorumque numero Viseum reversus est urbem».    Algum território ao sul do rio Douro ficaram, portanto, os cristãos possuindo, depois de ajus­tada a paz com o emir de Córdova, paz que só foi quebrada quando, em 914, Ordonho II realizou algumas correrias pela antiga Lusitânia, aquém e além do Tejo. Dessas e doutras empresas, como as de Ordonho III, parece, contudo, não haver resultado domínio estável de cristãos ao sul do rio Douro até à época das im­portantes conquistas de Fernando I na Beira, nas quais, segundo a Chronica dos Godos, consumiu oito anos, ex­pulsando então os sarracenos de Seia, Viseu, Lamego, S. Maninho de Mouros, Penalva, Travanca e outros castelos vizinhos e, finalmente, de Coimbra.

 

«Estas indecisões de fronteiras, determinada pela sorte, ora favorável, ora adversa, das armas cristãs, torna extremamente difícil, se não impossível, averiguar se, pelos anos de 912, a região que demora Lourosa fazia parte do domínio maometano ou da monarquia leonesa, de que era então chefe Garcia I.

 

«Admitamos, porém, a primeira hipótese; aceitemos que essa região era, ao tempo, habitada por uma população em que preponderava o elemento moçárabe — elemento indeciso, meio sarraceno, meio godo, que fácilmente se acomodava ao predomínio muçulmano  ou  ao  cristão (2) — e  vejamos  se  as condições em que essa população vivia tornam plausível a hipótese de haver sido por esse tempo edificada a multisecular igreja de S. Pedro de Lourosa.

 

«Pensa Dosy (l) que sucedeu na Espanha o que sucedeu nos outros países conquistados pelos árabes: — o domínio maometano transigente e brando de começo, quando ainda vaci­lante, converteu-se depois em fero despotismo. Parece, contudo, que, pelo menos sob o ponto de vista religioso, a dominação árabe, se não foi tolerante como Herculano e outros escritores no-la apresentam, não deve também ser aquilatada, em geral, pelas terríveis perseguições de que nos falam Santo Eulógio e Álvaro de Córdova.

 

«A invasão da Península não teve, de-certo, como objectivo (ao menos como objectivo principal) a dilatação do islamismo. A que o número dos sectários do Alcorão crescesse, os muçulmanos preferiam, sem dúvida, que avultasse o rendi­mento das contribuições, pessoal e territorial, impostas àqueles que se não convertessem. É certo, no entanto, como observa o sr. Fortunato de Almeida (2), que a sorte dos cristãos dependia, geralmente, do despotismo de um emir, do fanatismo, da ambição e da rapacidade de um vali, ou de um alcaide.

 

«A liberdade religiosa dos ispano-godos era, pois, pre­cária, eventual. Nos séculos X e XI, segundo se infere dos monumentos paleográficos, era, porém, avultado, no actual território português, o número de igrejas, mosteiros e ascetérios. Afirma Simonet (1) que, na Espanha, foi a Igreja Católica a instituição que mais padeceu com a domi­nação sarracénica. Mas esse mesmo auto­rizado escritor confessa que, se a igreja vivia sob uma dura e afrontosa servidão, o culto público da religião cristã era permitido e livre na Espanha muçulmana (2). «Em regra, o número das igrejas, que os cristãos submetidos deviam conservar, era fixado no momento da capitulação, e não se lhes permitia edificar outras, opondo ainda a legis­lação muçulmana sérias dificul­dades à reedificação ou reparação daquelas que se arruinassem. Estes princípios não foram, contudo, inflexivelmente observados por todos os  chefes  políticos maometanos e alguns houve até, que se não opuseram à cons­trução de templos cristãos.

 

«Não é, pois, temerário admitir que a igreja de Lourosa fôsse construída em 912, ainda mesmo que, a esse tempo a região não fizesse parte da monarquia leonesa.»

 

É isto o que se afigura mais provável, até. Do contrário dificilmente esta igreja alcan­çaria resistir às irrupções sucessivas dos árabes no território cristão — irrupções que, naturalmente, haviam de seguir-se, em represália, na quebra da paz de 914 com o emir de Córdova, num arrastar espantoso, como sempre, de ruínas e depredações, numa época tremenda como aquela, em que a fixação de fronteiras, de contínuo à mercê da sorte das armas, tantas vezes se tornava irrisória, muito prin­cipalmente nos distritos entre o Douro e o Tejo, tal como assevera A. Herculano: «Dos territórios da Espanha nenhum, talvez, mudou mais vezes de senhores durante a luta do que os distritos dentre Douro e Tejo, sobretudo, nas proximidades do oceano, e porventura que em nenhum ficaram mais vestígios da existência da sociedade moçarábica, da sua civilização material, das suas paixões, dos seus interesses encontrados, e até dos seus crimes e virtudes.»

 

Ora, de todas essas incursões em território cristão, escusado será relembrar, pelas formidandas assolações que a caracterizaram, a do terrível Almansor, em 987, que de novo fez recuar para além Douro as fronteiras da monarquia neo-gótica. Como poderia, pois, aquela, furtar-se a uma completa ruína, se não estivera adentro do perímetro das fronteiras muçulmanas?

 

Seja como for, mesmo que Lourosa estivesse, aquando a edificação da sua igreja, sob o domínio dos cristãos, subsiste o facto incontestável de que, em harmonia com a data da inscrição que tanto a distingue, ela, alcançando em plena marcha o período da Reconquista, encontra-se integrada no estilo visi­gótico influenciado já pelo árabe—portanto, moçárabe. É isto o que de preferência nos interessa, independentemente de uma opinião cuja liberdade os ténues dados históricos facultam.

 

Viria de jeito, ainda, considerar o notável monumento como representante de uma basílica mais antiga, a qual, por se haver arruinado, ou porque a julgassem extremamente aca­nhada os cristãos reedificaram, quer agindo em território pró­prio, quer mediando a precária concessão da autoridade islamita. Tudo isso podia suceder e não repugna acreditá-lo, tanto mais que tais casos se tornavam frequentes—conjecturas, porém, são estas que não atenuam, sequer, a impossibilidade de tirar a claro este, ponto não menos obscuro, como tantos outros que remontam a idades tão afastadas.

 

Observados de perto, os componentes moçárabes da igreja de Lourosa, embora manifestos e decisivos, não são, con­tudo, de molde a competir, em abundância, com os que, no sul da Península, aos cristãos submetidos dava ensejo o permanente contacto, em que estavam, com a arte árabe; dos principais centros maometanos — Córdova e Toledo — não obstante o aferrado empenho, daqueles, em salvaguardar o fundo visigótico das suas igrejas. Aí, a acentuação asiática é maior, devido à vigorosa corrente da invasão islamita, que, por assim dizer, con­densava as influências artísticas promanadas dos diversos povos em que imperava a arte sassánida.

 

Em o norte, porém, mais aberto a influências extranhas, onde a tradição latina modificada por elementos orientais era mais viva e mais sentida, o influxo árabe revelou-se algo tardio e moroso, podendo dizer-se que tomou incremento apreciável somente a partir dos fins do século IX, com o declinar do poderio muçulmano e, em retorno, com a pertinaz expansão dos estados cristãos, para o sul. É que, até então, não deixaria, por certo, de contrariá-lo a vivacidade dos esforços que, em diferentes mosteiros, se faziam para recuperar a cultura isidoriana, eclipsada pela invasão muçulmana, se é que, já antes desta, não estava, ela, em decadência (1). No entanto, de longe vinham as sugestões e aderências, para que o norte da Espanha pudesse esquivar-se às infiltrações da arte árabe, já bem patentes, pelo menos, no século x, tal como o denota a igreja de S. Pedro da Nave (Çamora)—a que mais se aproxima da de Lourosa, quanto à planta — e outras, ainda, com ela relacionadas no estilo e na idade: haja em vista S. Salvador de Priesca e S. Miguel da Escalada, fiara só falar destas.

 

Como se vê, distanciavam, portanto, anos que farte desde a invasão sarracena (711), que foi, incontestavelmente, o apogeu das façanhas guerreiras dos muçulmanos, a coincidir com o célere desenvolvimento da sua arte esplêndida.

 

Com efeito, iniciado já no século VII, foi este o período áureo das grandes conquistas dos sequazes de Mafoma, nas quais recolheram, como precioso despojo, os elementos artís­ticos que, a partir de então, combinaram nas suas construções. E tão bem, que, já no século VIII puderam levantar essa mara­vilha de arte, que era a mesquita de Córdova — bosque de colunas de oiro e de cores, como as sensuais perspectivas do seu Alcorão, a qual, mais tarde, em 9 de Junho de 1236, D. Fernando III, o Santo, havia de purificar para consagrá-la em templo cristão. —Tal como, pouco depois, aconteceu com a de Sevilha, a magnífica, ao dobrar a cerviz orgulhosa perante a cruz: Deu-se o caso que,'no acto da rendição, os moiros, solicitando de Fernando III que lhes fosse permitido derrubar a mesquita maior da cidade, o monarca, tornando-se porta-voz do filho que havia de suceder-lhe no trono (Afonso X, o Sábio) e o acompanhou no assédio, fez-lhes sentir que, por uma telha, apenas, que faltasse ao monumento, ou uma pedra a menos da sua torre, nem um só dos sitiados escaparia com vida. Então, puderam as hostes cristãs ajoelhar-se na grande Mesquita, trans­formada em templo católico. E assim terminou o império dos Almohadas.

 

"A igreja de São Pedro de Lourosa" - Manuel de Aguiar Barreiros, 1934 

 

 

 

 

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Os Visigodos e a sistematização do arco ultrapassado

 

Ao referirmos os elementos arquitectónicos característicos desta arte peninsular do domínio visigótico, teremos, naturalmente, (...) de falar no arco de ferradura que se torna, neste período arquitectónico, elemento constante sendo, portanto, o seu uso, perfeitamente sistematizado.

 

Fernando de Almeida refere (14) "... Que o arco de ferradura, característico da arte visigótica, já se via nas construções sírias. Encontra-se na basílica e mosteiro de S. Simero e na de Binbirkalésia...".

 

Conforme W. Neuss, as colunatas usadas nos templos sírios eram formadas por arcos de ferradura.

 

Charles Diehl (18) afirma "... Foi mérito do visigótico ter-se servido deste arco para o converter em elemento arquitectónico...".

 

O arco em ferradura foi sempre encontrado nas poucas igrejas que restam, deste período, na Península.

 

Foi o historiador Quadrado que chamou a atenção para este arco em S. Juan de Banos, monumento, construído por Recesvindo, em 661.

 

Neste caso, o arco é de origem peninsular e, no caso contrário, ou seja, quando tem pedra de fecho, c de origem oriental.

 

Este elemento aparece, também, em janelas e, como já sabemos, em elementos de decoração.

 

Nalguns casos, considerados raros, como por exemplo na igreja de S. Pedro de La Nave, este arco apresenta-se com um ultrapassamento de cerca de 3/2 do raio e, também, sem pedra de fecho.

 

Será, naturalmente, um caso das diversas alterações pelas quais vai passar, quando do domínio muçulmano da Península.

 

 

Arco ultrapassado na Igreja
de São João de Banos - Espanha.

Arco ultrapassado na Igreja
de São Pedro de la Nave - Espanha.

 

excerto de O Islamismo e o Arco Ultrapassado na Península Ibérica

- Nuno Santos Pinheiro,  Hugin Editores -1997

 

 

 

 

 

 

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São Pedro de Lourosa

O exemplo moçárabe português

 

Em Portugal, a nossa contribuição para esta arte moçárabe é dada pela igreja de São Pedro de Lourosa.

 

A povoação deve ter conhecido o domínio de diversos povos invasores — romanos, visigodos e muçulmanos.

 

Durante a reconquista estabeleceu-se aqui uma comunidade moçárabe.

 

Foi doada à Sé de Coimbra pela Rainha D.Teresa em 1119 e D.Afonso Henriques mandou-a coutar em 1132. O primeiro foral foi-lhe concedido em 1347 pelo Bispo de Coimbra.

 

Uma lápide que se encontra sobre a verga de porta ostenta a data de 950 da era de César (912 da era cristã).

 

O interior do edifício é constituído por três naves separadas por arcos de ferradura assentes sobre colunas que, segundo Gomez-Moreno (6), parecem ser de estilo romano.

 

A nave central é mais larga que as laterais e o transepto é pouco saliente em relação às paredes exteriores. A cabeceira é formada por três capelas, incluindo a principal.

As capelas colaterais abrem-se para o corpo por arcos de ferradura.

 

Segundo Gomez-Moreno (6) todos os materiais provém de reaproveitamento de restos de edifícios.

 

Os arcos de ferradura têm centro único.

 

Em Lourosa não existe cimalha que, nos arcos moçárabes, se interpõe entre o arco e o capitel, mas, simplesmente, uma imposta.

 

É uma igreja solitária com uma inverosímil ligação andaluz e fora do círculo leonês.

 

excerto de O Islamismo e o Arco Ultrapassado na Península Ibérica

- Nuno Santos Pinheiro,  Hugin Editores -1997

 

 

 

 

 

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Arte pré-românica visigótica, asturiana e moçárabe

 

(...) A arquitectura e o talhe da pedra revelam no estilo visigótico espanhol uma grande liberdade de concepção. O arco de ferradura é um elemento típico constante nestas construções. A presença deste tipo de arco nos monumentos visigóticos levanta um problema importante. É possível que os Muçulmanos tivessem imitado dos Visigodos esta forma para a utilizarem nas suas próprias construções. Contudo, falta ainda esclarecer se o arco de ferradura era um elemento local antigo, se teria vindo para a Península com as primitivas influências orientais ou se os Visigodos o introduziram como um elemento novo na Espanha do século VI. Esta hipótese parece contrariada por os outros povos teutónicos não terem empregado este arco.

 

(...) Com o avanço dos cristãos para a outra vertente da cordilheira cantábrica e a transferência da capital para Leão, impôs-se um novo estilo, cujos curiosos monumentos só no primeiro quartel do século XX foram estudados e reconhecidos. Estamos a referir-nos às igrejas moçárabes, de uma arte diferente quer dos monumentos asturianos, quer da tradição visigótica. São designados por moçárabes os cristãos espanhóis que ficaram nas terras dos Mouros, mas mantiveram a língua, a fé e as tradições próprias. As igrejas que edificaram em Castela e Leão tinham planta basilical e arcos de ferradura. Este traçado dos arcos dá-lhes um aspecto pseudo-islâmico; os moçárabes empregá-los-iam nas igrejas edificadas nos territórios submetidos ao domínio muçulmano. Viviam aí como cristãos, pois os maometanos foram, a princípio, tolerantes e permitiam-lhes praticar o culto.

 

Mas no século X os numerosos monges de Córdova tiveram de emigrar, perseguidos em consequência das suas atitudes anti-islâmicas. Refugiados nos reinos do Norte, construíram igrejas de um novo tipo, a que chamamos hoje moçárabes. As maiores são de três naves, com a central bastante elevada e ladeada pelas arcadas das colaterais (arcos de ferradura), onde assentam as paredes do clerestório e nestas o madeiramento do telhado. As igrejas abobadadas têm uma só nave e são mais pequenas. Todas eram caiadas interiormente.

 

Os monumentos asturianos e moçárabes, embora derivados do estilo visigótico anterior à invasão muçulmana, são de estrutura e de gosto muito diferentes.

 

Representarão os monumentos moçárabes a tradição visigótica subsistente na região andaluza, já contaminada pelo carácter islâmico? Quando os monumentos moçárabes têm abóbadas na abside e no cruzeiro, estas são também de secção de arco de ferradura. Mas nos monumentos moçárabes o arco de ferradura é mais peraltado que o arco visigótico. Tem já o alçado dos arcos árabes. Fora este pormenor, estes edifícios cristãos em nada se assemelham aos que os Muçulmanos construíram em Espanha.

 

 

Secção e planta de San Miguel de Escalada   |    Secção e planta de Santa Maria de Melque (Toledo)

 

Galeria porticada em San Miguel de Escalada

 

Podemos datar muitas igrejas moçárabes dos fins do século IX ou do X. As melhor conservadas continuam a ser as primeiras que se identificaram: San Cebrián de Mazote, Santa Maria de Melque, San Román de Hornija, Santa Maria de Bamba, San Millán de Cogolla, San Miguel de Escalada, etc. Santa Maria de Melque (Toledo) foi construída sob o domínio muçulmano. Tem arcos de ferradura e abóbada de berço. A planta é de cruz grega e a abside, embora quadrada por fora, tem planta de ferradura. As outras igrejas referidas foram construídas por moçárabes emigrados nos reinos cristãos. De uma delas, San Miguel de Escalada, na província de Leão, podemos reconstruir a história. Parece ter existido aí na época visigótica um cenóbio que, destruído pelos Mouros, só em 913 foi restaurado ou edificado com nova planta pelos monges moçárabes fugidos de Córdova. Este monumento constitui um dos melhores exemplares do estilo. Tem ainda a cancela que separa a capela-mor das naves, como a chamada iconostasis das igrejas gregas, e que encontramos também em Santa Cristina de Lena. Os parapeitos decorados lembram contudo o velho estilo visigótico. No exterior tem um pórtico lateral (galeria porticada), constituído por uma impressionante fileira de doze arcos de ferradura. Entre as restantes igrejas moçárabes do grupo castelhano-leonês salientam-se especialmente San Cebrián de Mazote (Valhadolid), de planta basilical de três naves, separadas por duas arcadas de ferradura que suportam a armação do telhado de duas águas (...).

 

Secção e planta de San Cebrián de Mazote

 

 

excerto de

"Arte pré-românica visigótica, asturiana e moçárabe" - Capítulo 8

História da arte, J. Pijoan, volume 3, Publicações Alfa, Lisboa, 1988

 

 

 

 

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Arquitectura Moçárabe um revivalismo visigótico

 

(...) A dominação árabe aparece na Península cortando um processo que, longe de estar estabilizado, evoluía no caminho de formação de um Estado que os bárbaros, os visigóticos, tinham admitido, face ao poder adquirido pela Igreja.

 

Este processo social que caminhava num sentido, digamos que uníssono, com o domínio merovíngio, foi repentinamente paralisado com a invasão de um "povo" com uma ideologia, uma religião c uma filosofia que nada tinha a ver com o andamento histórico da Península.

 

Esta situação forçada, não natural, teria de traduzir em arquitectura, o sentimento dos "dominados", daqueles que embora "aceitassem" pela força das armas, o poder "estrangeiro", não deixariam de manter o seu modo de viver que acabaria, sempre, por sofrer influencias.

 

Recordemos alguns reinos cristãos que, durante o período do domínio muçulmano na Península, adoptam a língua e as próprias vestes destes árabes, nos seus palácios...

O mundo foi criado. As sociedades vivem neste mundo e adaptam-se consoante múltiplas vicissitudes, quer sociais, quer políticas, quer económicas.

 

Elas transformam-se, não se criam.

 

O processo de criação do mundo está concluído, o processo de transformação é infinito.

O moçárabe, é um cristão que convive com o muçulmano. É um homem com outras crenças, com outros interesses, com uma sensibilidade que o faz estar em oposição com aquele que o domina e o obriga a aceitar o seu querer.

 

Lentamente, este homem aceita influências e vai traduzi-las como um queixume no seu intrínseco sentido de vida, na sua religião, na sua filosofia.

 

O moçarabismo é um fenómeno natural, lógico, humano, social, de um povo que contesta a sua ancestralidade, que contesta a sua cultura, que contesta a religião dos seus antepassados, que até, insensivelmente, "revive" o seu passado.

 

O moçarabismo tem o reverso no mudejarismo, ou seja, naqueles que, foram desintegrados, culturalmente, do seu meio e, como muçulmanos, se vêm num meio cristão. Assim, tentam manter o seu tradicionalismo, a herança dos seus.

 

São, tanto um como outro, fenómenos culturais que se intercalam entre posições, social e esteticamente, distintas e dominantes no tempo.

 

O moçárabe é um cristão que se submete ao poder do muçulmano, que vive no seu ambiente, que aceita as suas leis, assistindo ao aparecimento da ''nova arquitectura" criada pelo invasor, feita de elementos que os seus antepassados usaram. Ele constrói, revivendo as formas primitivas, ligadas à sua cultura ancestral. A estrutura da sua arte, é visigótica mas, no entanto, ele não pode ser indiferente ao ambiente cultural onde está inserido e daí, a influência que aparece no decor da sua arquitectura, de raiz muçulmana, cheio de singeleza, talvez até de ingenuidade.

 

A adaptação do homem, a processos de alteração radical da sua estrutura religiosa e política, é extremamente lenta. O moçarabismo é dela exemplo, ele constituiu-se em cinco séculos de dominação visigótica.

 

Seriam necessários outros cinco séculos, para que desaparecesse todo o conteúdo de formação espiritual do ibérico?

 

Talvez este elemento seja suficiente para ver como o processo de transformação das sociedades era, naquele tempo, lento e difícil.

 

Hoje, outros processos mais sofisticados, aproximam as pessoas, desvirtuam-lhes o carácter, transformam-nas em seres híbridos face a um modo que, parece estar a ser reduzido, na sua forma de pensar e de sentir, a uma fórmula única, pré-estabelecida.

 

O moçárabe (palavra que deriva de "Mustarib" que significa "tomado árabe") ou Muahidum que significa "os que ajustaram um pacto", (1) podem conservar a posse das propriedades, continuar a reger-se pelas leis visigodas, manter o seu culto.

 

Em troca, pagavam a "Jizia" (capitação), função das posses de cada homem que tivesse condições de trabalho, e, ainda, o "Corage", contribuição predial.

 

Este cristão, "dimi" (inimigo de Alá) era agarrado pelo pescoço quando pagava (1) o seu tributo.

 

A arte moçárabe aparece, como uma reacção imediata a um processo de violência física e psíquica dos muçulmanos sobre os hispano-visigóticos.

 

É, portanto, uma arte que representa, os sentimentos do ser submetido, que poderão ser de repulsa, de aceitação paciente ou de esperança.

 

Quando se traduz no ódio, cria revoltas que levam a situações limites: ao martírio, à morte, à criação de santos, de relíquias, de adoração religiosa.

 

Quando se traduzem, em esperança, levam à fé, à adoração da imagem cuja proibição de ser representada acaba, no Concílio de Elvira de 843.

 

A igreja é o espaço de culto que o hispano-visigodo já construía para orar ao seu Cristo.

 

Nesta altura, os mártires começam a ter força religiosa sendo levadas as suas relíquias à mesa do altar.

 

O moçárabe, reconstrói o que o muçulmano destruiu e constrói sob a sua influência, os seus novos templos.

 

Desenvolve assim uma cultura bem original no domínio da arquitectura e da miniatura.

É interessante ver a posição geográfica dos caminhos que se criam para a igreja de peregrinação de Santiago de Compostela, como também é evidente, mais tarde, a localização geográfica dos templos moçárabes da Península.

 

Elas traduzem, o caminhar lento da reconquista que culmina na restauração (segundo Ubieto) das sedes espano-cristãs na Península, (...).

 

Éalo de Sá (2) entende que, foi em Toledo, na antiga cidade imperial, que vence a arte moçárabe.

 

Assim parece acontecer, mas o fenómeno da reconquista cria um clima tenso entre os muçulmanos e os cristãos, sendo estes últimos empurrados para a periferia, como admite Jacques Fontaine (3).

 

Assim, há, naturalmente, um caminhar de implantação destes templos para o Norte, para os territórios ocidentais já reconquistados da Península.

 

E um facto notório a influência de monges moçárabes, desde o século VII, na Galiza, nas Astúrias e Leão, sob a protecção de Afonso III.

 

O resultado, sob o aspecto arquitectónico, é o desvio do tradicionalismo basilical asturiano.

 

Os mosteiros moçárabes constituem-se em focos de cultura e organização social que serão o caminho que conduzirá, mais tarde, ao românico.

 

Em Leão, encontram-se muitos movimentos de características moçárabes.

 

Predomina, em todos os edifícios, o emprego do arco de ferradura que ganha em subtileza e elegância, à medida que o estilo evolui.

 

A partir do século X, aparece, como réplica de Córdova, o uso da abóbada nervurada. São exemplos, S. Miguel de Escalada — com a sua nave coberta de madeira, os seus arcos de ferradura, caindo sobre colunas, por intermédio de capitéis desbastados, e, no exterior, os seus medalhões esculpidos —, Santiago de Penalba, S. Miguel de Celanova e S. Milão de la Gogolla.

 

Gomez-Moreno diz que (4) "... esta estranha civilização impregnada do Islão, traz com ela, homens cuja língua literária é o árabe enquanto a língua religiosa é o latim..."

 

A arte moçárabe é flexível, adopta formas e processos vários. Flutua nela a originalidade criada pela ligação do visigótico, do bizantino e do muçulmano.

 

"... É uma arte individualista, com uma frescura de invenção que só tem parceiros no Oriente..." segundo Gomez-Moreno (5).

 

excerto de O Islamismo e o Arco Ultrapassado na Península Ibérica

- Nuno Santos Pinheiro,  Hugin Editores -1997

 

 

 

 

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MOÇÁRABES

 

Artes — A arte dos Moçarabe limita-se ao campo religioso da arquitectura e da iluminura, e floresceu do séc. IX ao séc. XI. Não é fruto de uma escola, mas de uma série de artistas isolados unidos pelo mesmo ideal de fidelidade à tradição. É patente o esforço em manter a arte visigótica perante a investida da arte árabe. As igrejas Moçárabes adoptam quer a planta cruciforme grega. ou latina, quer a planta basilical. Os arcos são sempre de ferradura, apoiados em colunas monolíticas, sendo os capitéis coríntios ou compostos, estilizados ao modo oriental. Tanto os materiais de construção como os tectos das igrejas adoptam a maior variedade. A arte moçárabe floresceu quer entre os cristãos, que viviam sob o jugo muçulmano (Andaluzia e Toledo) quer em quase todas as restantes províncias da Península Ibérica. O foco artístico principal encontra-se no reino de Leão. Em Portugal, da arte dos Moçarabe fala-nos a Igreja de Lourosa, na região de Coimbra, bem como as iluminuras de mss. como o Livro das Aves e o Apocalipse de Lorvão.  Deve-se a S. Rosendo (séc. XI) a igreja moçárabe de S. Miguel, no Mosteiro de Celanova, na província de Orense.

 

excerto de

Enciclopédia Luso - Brasileira de Cultura, Editorial Verbo, 13º Volume - C. MANUEL

M. Gomez Moreno, Iglesias mozárabes, arte espanol de los siglos IX-XI, 2.° vol., Md., 1919;

id., «El arte espanol hasta los almohades. Arte Mozárabe», em Ars Hispaniae, III, ibid., 1951;

Marqués de Lozoya, Historia del Arte Hispánico, I, Bar.,   1931.

                                          

 

 

 

 

 

 

 

 

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MUDÉJAR

 

(...) Séculos mais tarde, já muito adiantada a Reconquista, os muçulmanos que tinham permanecido no território libertado utilizaram as suas técnicas decorativas num estilo híbrido no qual se construíram numerosos edifícios cristãos e que ficou a ser conhecido pelo nome de mudéjar (mourisco). Este novo estilo foi criado pela colaboração de mestres cristãos e de operários e artistas muçulmanos que não emigraram, apesar da Reconquista. São edificações magníficas de tijolo e taipa, muitas vezes com decoração de azulejos. Nunca se deve, pois, confundir o estilo mudéjar com o moçárabe. O mudéjar é o estilo dos mouros que permaneceram em terra de cristãos, o moçárabe é o de cristãos que vinham foragidos das terras dos Muçulmanos. São dois estilos muito diferentes e separados por um intervalo de três séculos.

 

excerto de

História da arte, J. Pijoan, volume 3, Publicações Alfa, Lisboa, 1988
("Arte pré-românica visigótica, asturiana e moçárabe" - Capítulo 8)